Custa crer tamanha fragilidade, tamanha dependência, de restar num leito à disposição de tudo: da vida, da morte, da saúde ou da doença. E dormir com incertezas, com o corpo perfurado, e só promessas... Juras tímidas de que o pior não há de acontecer. E ver-se tão debilitado à mercê da decisão alheia, de veredictos de homens de branco, de favores de mulheres de branco. Simpáticos, simpáticas, mas meio deuses, podendo decidir o que fazer de seu corpo, que esperanças dar ou negar para a sua alma. Médicos, enfermeiras ficam ali, querendo o seu bem, mas meio deuses, com o poder de decisão acima do que é humanamente justo. Eis ali, os juízes nos processos, os governos nos palácios. Todos os seres humanos adoram ser deuses, e, não podendo sê-lo sempre, passam a fingir-se de Deus nos seus minúsculos quintais. E as pessoas restam depositadas, umas melhor, outras pior, mas todas com cheiro de éter, com marcas de algum corte (quando não os fazem a vida, fazem-nos os próprios médicos), todas querendo sair dali: umas preferindo a morte, mas quase todas um pouco mais de tempo nessa vida, às vezes para sofrer mais, mas quase todas querem mais tempo.
Ficamos como bebês de tenra idade, em extrema dependência de tudo, o que comer, o que vamos vestir, o que fazer. Em um instante, voltamos aos primeiros meses, órfãos em mãos de mães estranhas, que sequer nos embalam. Me incomodam sobremodo as necessidades fisiológicas, me incomodam as vestes ridículas, abertas como se fossem para prostitutas rotas.Irrita-me a total perda de privacidade, sem que se possa protestar, ou acionar em Juízo. Tiram tua privacidade, sangue, sono, tudo. E tudo para teu próprio bem, para tua cura, para que retornes para longe deles. Deus me conceda saúde para não ficar novamente à mercê destes bondosos generais de tesoura, mas que me dê eterna lembrança, eterna piedade por cada segundo que cada pessoa, por mais desconhecida que seja, passa encarcerada em dor ou doença, que mesmo quando se trata, maltrata.
Que eu nunca esqueça a dor da dependência, da incerteza, da fragilidade, que eu não esqueça o cheiro de hospital, a sensação de não saber se teremos alta, se as coisas vão ou não dar certo, dos remédios no meio da madrugada, do tempo e insônia para contar as gotas de soro caindo, os remédios servidos em copinhos de café, a culpa por saber que muitos, muitos, muitos mesmo, precisavam desta miserável condição, mas estão pior ainda, talvez à míngua. E você quer reclamar mais da vida, da dor que lhe acomete, mas se olhar para a rua, se vê afortunado, mesmo na hora mais desgraçada (mesmo aí tem que reconhecer: a sorte te sorri e você fica envergonhado).Nós não somos nada, nossa efêmera imagem, nossa vida volátil, como nos enganamos por andarmos eretos! Nós somos curvos, nós somos totalmente curvos, e frágeis, e fracos.






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